O Cotidiano Infantil Violento


Contemporaneamente, diz-se que vivemos a cultura da violência. Concordamos, desde que se esclareça que a humanidade tem vivido, histori- camente, a cultura da violência e desde que se especifiquem suas características que, certamente, são diversas das já transcorridas. No século XIX e em grande parte do século XX a discussão sobre a violência do colonizador – para ficar no exemplo já citado – tomava as reflexões dos intelectuais (Sartre e Fanon, por exemplo) e motivava a reu-nião de pessoas em organizações que lutassem com armas ou com palavras contra essa situação.

Não havia nenhuma preocupação com a mídia, que, devido ao desenvolvimento tecnológico, sobretudo no que se refere à televisão, passou a ocupar, hoje, o território de pais, intelectuais e organizações que se preocupam com a banali- zação da violência e sua multiplicação, acabando por conferir, às vezes indevidamente, segundo pesquisas, à mídia uma responsabilidade que é da sociedade.

É bom resgatar um outro aspecto: a violência é um fenômeno social e não individual, como faz parecer hoje em dia a cobertura da mídia. A impressão que se tem é que vivemos num suceder de acontecimentos violentos, praticados por josés, marias, severinos, e que, sendo eles eliminados (e aí a defesa da pena de morte, como se ela já não fosse praticada no dia-a-dia), a violência desapareceria.

Esse reducionismo na contextualização da violên-cia é altamente prejudicial. A reflexão sobre violência há de levar em conta a sociedade como um todo, a inter-relação entre os fatos e aconte-cimentos, a história das relações de dominação e de exploração. A discussão da violência como característica do sistema em que vivemos não adentra, ou adentra raramente, a agenda da sociedade.

Excluindo-se a totalidade, a representação social da violência tem sido predominantemente a de um fenômeno “de fora”, que caracteriza alguns grupos da sociedade. Sem dúvida, pobres e negros, sobretudo. É necessário que se amplie esta representação.

Levar a pensar a violência como totalidade é o que consegue este livro.

O cotidiano infantil violento: marginalidade e exclusão, organizado por Elza Dias Pacheco, é o coroamento de um processo que exigiu dos colaboradores o lado de participação política e social que deve caracterizar todo pesquisador, mas nem sempre devidamente compreendido no campo científico, em que ainda se ouve falar de “ciência neutra”.

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